Domingo, 07 de Junho de 2026 - 15:27:23

Direitos avançam, mas pacientes ainda sofrem estigma; 'acham que é frescura, que você está burlando'

Segundo o reumatologista Diego Logrado, a principal barreira clínica é o fato de a fibromialgia não apresentar um marcador laboratorial ou exame de imagem específico que comprove a intensidade dos sintomas

Crédito da Foto: Pexels / Arquivo Pessoal

Direitos para pessoas com fibromialgia avançam em Mato Grosso, porém há um longo caminho entre o que prevê a legislação e a conversão em dignidade prática. A síndrome é caracterizada pela dor crônica muscular generalizada sem inflamação aparente, associada a fadiga extrema, sono não reparador e alterações cognitivas.

Recentemente, o estado passou a garantir que a nova Carteira de Identidade Nacional (CIN) inclua a Classificação Internacional de Doenças (CID) da condição, facilitando a identificação desses pacientes. Entretanto, antes de o paciente avançar para esta etapa, existem muitas dificuldades de diagnóstico.

Segundo o reumatologista Diego Logrado, a principal barreira clínica é o fato de a fibromialgia não apresentar um marcador laboratorial ou exame de imagem específico que comprove a intensidade dos sintomas.

"Muitos pacientes têm exames normais e, ainda assim, convivem com dor crônica difusa, fadiga, sono não reparador, dificuldades cognitivas e perda de qualidade de vida", explica o médico.

Ele destaca que, antes do reconhecimento legal, o grande desafio era convencer instituições de que a condição gera uma limitação real, mesmo sem alterações em exames convencionais. Atualmente, a Lei Federal nº 15.176/2025, que equipara a fibromialgia à deficiência para todos os fins legais, estabelece diretrizes para o atendimento integral no Sistema Único de Saúde (SUS), mas sua implementação trava na burocracia.

Tamires Coêlho, professora de jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que convive com a síndrome, relata que o amparo legal ainda não se traduziu em mudanças reais. “Na prática não mudou nada na minha vida até agora, porque as coisas estão muito nebulosas”, afirmou em entrevista.

Um dos principais pontos de debate é a avaliação biopsicossocial exigida pela nova legislação. Por ser uma síndrome de diagnóstico clínico, funciona por exclusão. Tamires afirma que é necessário passar por uma bateria de exames para descartar outras alternativas antes de chegar ao laudo.

Diego Logrado reforça que o papel do reumatologista é diagnosticar e acompanhar a evolução clínica, mas ressalta que a lei ajuda a trazer mais seriedade à avaliação de funcionalidade, sem substituir a análise clínica individualizada. Para ele, o maior ganho da legislação é tirar a fibromialgia da "invisibilidade institucional", permitindo que casos com maior comprometimento funcional sejam avaliados com mais respeito e critério.

Para além das leis, a política de conscientização, reforçada pelo Dia Nacional (12 de maio), tenta combater o estigma social que ignora a condição de quem não possui uma deficiência visível. O médico percebe que, com a nova legislação e diretrizes, a data deixou de ser apenas simbólica para se tornar uma oportunidade real de educação em saúde. É um momento crucial para reforçar que a fibromialgia é uma doença real.

“As pessoas olham torto, como se você não precisasse daquilo. Acham que você está burlando a lei, então eu preciso provar constantemente. As pessoas acham que é frescura, que você está burlando um direito de outras pessoas; muitas vezes não se respeita o crachá que eu uso. Atualmente eu tenho usado cinco remédios diários, tanto para eu suportar a dor durante o dia quanto para conseguir ter algum sono de uma qualidade mínima. É uma dor real”, desabafa Tamires.

A cobrança então recai sobre o poder público para estruturar equipes multidisciplinares no Sistema Único de Saúde (SUS) (reumatologistas, psicólogos, fisioterapeutas e educadores físicos). O reumatologista confirma que essa abordagem interdisciplinar ainda é uma exceção no Brasil, tanto no setor público quanto no privado.

"O sistema ainda é muito fragmentado. O ideal seria uma equipe com linguagem comum e metas compartilhadas, mas, na prática, o médico precisa coordenar o cuidado, adaptando-o à realidade financeira e geográfica do paciente", afirma.

Ele ainda aponta a dificuldade de acesso a tratamentos não farmacológicos recomendados pela Sociedade Brasileira de Reumatologia, como acupuntura, Tai Chi Chuan e psicoterapia. Em cidades como Rondonópolis, local de atendimento do médico, por exemplo, algumas dessas modalidades não estão disponíveis de forma estruturada na rede pública, evidenciando a desigualdade entre a inovação terapêutica e o acesso real.

Sobre o mito de que a fibromialgia "é psicológica" ou "não existe", o especialista é enfático.

"A fibromialgia envolve alterações no processamento da dor pelo sistema nervoso, com amplificação da sensibilidade dolorosa. O problema é usar o componente emocional para deslegitimar a doença. O seu diagnóstico não significa que a sua vida acabou. O tratamento exige participação ativa e paciência, mas o objetivo final é recuperar a autonomia e a qualidade de vida", declara.



Autor: Gazeta Digital
Data: 25/05/2026